19/11/69 – 11:11pm – Maracanã

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Era 19 de novembro de 1969.
11 horas e 11 minutos da noite.
Vasco e Santos pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Brasileirão daquela época.
65.157 pessoas estavam no Maracanã e presenciaram um gol daquele que 12 anos mais tarde iria ser eleito o Atleta do Século. Era o milésimo gol de Pelé.

Sabe qual é a relevância disso pra sua vida hoje?

NENHUMA!! Fazer mil gols é difícil, mas se até o Túlio pode, qualquer um pode. Não quero entrar no mérito das idades dos jogadores. Aliás, não quero nem discutir futebol. Meu assunto aqui é uma frase:

“Pensem no Natal. Pensem nas criancinhas”. Foi isso que Pelé disse quando os repórteres o sufocaram com os microfones. Ninguém esperava aquilo. Sequer podiam imaginar que ele fosse dizer tal coisa.

Em 1969, os olhares estavam na Lua, estavam na Líbia, estavam na ditadura e no Médice que tomava posse. Mas Pelé estava pensando nas criancinhas e virando piada nas rodas de bar.

Será que alguém pensou nas criancinhas, como ele queria? Provavelmente sim. Mas muito pouco puderam fazer para melhorar uma situação que não podia ser comentada. Havia censura, havia o medo de criticar e comentar qualquer aspecto da situação do país. Pelé deu uma dica, sutil como uma tamancada na cara. Que futuro nós teremos, se não cuidamos do nosso futuro?

Hoje em dia, existe a liberdade de falar e de agir (ainda). Mas será que as pessoas, agraciadas com essa liberdade, fazem alguma coisa em prol das “criancinhas do Pelé”?

Fazem! Claro que fazem! Ligam pra zerotrezentosdoisoitotrêszerozeroquinze e dormem tranqüilas por mais um ano. Fácil fácil. Responsabilidade social ficou pop. É modinha, entra na pauta das pessoas pelo menos uma vez por ano. É mais ou menos como o Natal, uma época do ano que todo mundo ocupa as cabeças com a mesma coisa.

Criança esperança, teleton são soluções pra nossa acomodação. É a chance que nós, acomodados e alienados que somos, temos de fazer algum pelos outros gastando o mínimo de energia possível. Porque é isso que nós queremos, fazer o mínimo possível.

Esse ano estive envolvido com um trabalho na Faculdade que tinha esse apelo social. Nós estavamos coletando e doando remédios. Fizemos a campanha, os eventos, coletamos os medicamentos com a população e doamos a uma farmácia comunitária que era responsável pela distribuição junto a população carente.

Sabe qual era a frase mais ouvida quando a gente abordava as pessoas e falava da campanha? Era mais ou menos: “Nossa! Tô cheio de remédio em casa, onde eu posso levar”?

As pessoas não sabem e não procuram saber como ajudar aos outros. Simplesmente nos acomodamos e ficamos presos no nosso mundo, vendo as coisas pela TV como se fosse por uma janela blindada. “Eu vejo mas não me atinge, por isso só assisto”. Aí aparece uma campanha, fala na nossa cabeça durante um mês e a gente sente a culpa de nunca ter feito nada. Faz uma doação e dorme tranqüilo mais 365 noites.

Não vamos esperar que alguém nos diga pra ajudar as criancinhas, pra doar 15 reais ou ceder aquela Amoxixilina que você está guardando a mais de três meses sem usar. Questionemo-nos diariamente se não há nada a fazer pelos outros.

Vamos deixar de ser acomodados. Vamos pensar no Natal e nas criancinhas. E menos no nosso próprio umbigo.

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